terça-feira, 26 de junho de 2012

Intertextualidade na Poesia

A Intertextualidade ocorre quando há a criação de um texto com base em outras obras literárias, guardando elos que os unam, em um interessante diálogo de interpretação e intenção, leitura e escrita. A Intertextualidade pode se dar através de citações contextualizadas, de revisão da temática, da forma, pelo uso de palavras-chaves como nomes próprios, e uma infinidade de outras maneiras.

E isso não significa uma diminuição de qualidade artística. Não é o grau de explicitude do diálogo de uma obra com o que já fora criado anteriormente que vai definir sua importância. Exemplo disso são os poemas criados claramente com base em outros, que nem por isso são piores ou têm menos qualidade literária. Há uma variedade destes textos extremamente conhecidos (e reconhecidos) que assumem "descaradamente" sua Intertextualidade. Às vezes como homenagem, outras vezes como paródia, a Literatura é recheada de poemas dessa natureza.

Não há motivos para se ter vergonha de fazer poesia intertextual. Ela é só mais uma temática, mais um modelo e diria mais: mais um desafio. Porque para fazer um bom poema sobre outro já existente, é preciso talento e criatividade.

E grandes poetas já viajaram pelas águas dessa Intertextualidade explícita, fazendo paródias de outros poemas e criando novas obras. Veja este exemplo: Carlos Drummond de Andrade inicia seu texto "Poema de Sete Faces" com a estrofe 

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.



Ouça a declamação do Poema de Sete Faces, por Paulo Autran.


A partir deste trecho (e revisando a ideia original do poema de Drummond) vários outros textos de grandes nomes da Literatura Brasileira foram criados. Vejam trechos iniciais de alguns deles:

Até o Fim
de Chico Buarque de Hollanda

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(...)


Com licença poética
de Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
(...)


Let's Play That
de Torquato Neto

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
(...)

Até eu já cheguei a me aventurar na Intertextualidade com o "Poema de Sete Faces". No meu texto "Quando nasci" a referência ao trecho inicial do poema de Drummond é óbvia e ele foi construido inteiro sobre ela! Veja:

Quando nasci

Quando nasci, inda chorando,
Tenho certeza que vi
Um anjo reto, rodeando
O meu bercinho e ouvi:

“Arredio, menino: Vai!
Dê trabalho pra esse velho!”.
Desde então não pôde mais
Nem piscar, que fosse, um olho!

Não mereço, de certo, anjo
Bom como este que me guarda.
Pois sou traste e só lhe arranjo
Muita sarna a ser coçada!


E você? Também tem um poema baseado em algum outro famoso? Mostre para nós nos comentários!

Um abraço e até a próxima!

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