sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estrofes não são parágrafos!

Olá, pessoal. 

Depois de algum tempo, volto a escrever no Poesia e Escrita. Para esse post, escolhi um assunto que me parece muitas vezes ser uma dúvida, principalmente para aqueles que estão começando a escrever. 

O que é uma estrofe? Como separar meu poema em estrofes? Por que separá-lo, afinal? 

Muita gente acha que a estrofe na Poesia funciona como o parágrafo na Prosa. Não é bem por aí. Apesar de o parágrafo ser, também, um divisor, por assim dizer, na Prosa, sua definição é baseada no assunto tratado, ou seja, ele engloba uma ideia (ou um recorte de tempo definido), do começo ao fim, sendo que ele possui certa autonomia de seus pares no texto. 

Já na Poesia, isso seria impossível. Até por que nem todo poema apresenta uma quantidade de ideias suficiente para dividi-las. Na maioria das vezes, os poemas são a ideia em si. O que não impede que seja dividido por estrofes. As estrofes são unidades do texto baseadas em conceitos estilísticos. Ou seja: ritmo, sonoridade, métrica, rima, etc. Sendo assim, em uma estrofe seus versos são escritos pensados de forma unitária, com seu estilo fazendo sentido nesta unidade construída. 

Alguns exemplos: 

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado, (A)
A idéia estertorava-se... No fundo (B)
Do meu entendimento moribundo (B)
jazia o último número cansado. (A)

Esta estrofe do poema O Último Número, de Augusto dos Anjos, possui quatro versos (Quarteto), com rimas graves (paroxítonas) opostas (ABBA). Seus versos são decassílabos com tonicidade nas 6as e 10as sílabas poéticas.

Não sei quantas almas tenho. (A)
Cada momento mudei. (B)
Continuamente me estranho. (A)
Nunca me vi nem acabei. (B)
De tanto ser, só tenho alma. (C)
Quem tem  alma não tem calma. (C)
Quem vê é só o que vê, (D)
Quem sente não é quem é, (D)

Esta de Fernando Pessoa (de um poema com título atribuído Não sei quantas almas tenho), é uma estrofe de oito versos (oitava), todos redondilhas maiores (sete sílabas poéticas), com rimas alternadas nos quatro primeiros versos (ABAB), e nos quatro finais, rimas paralelas (CCDD). (É interessante notar que no quarto verso, Pessoa usa um truque para manter o ritmo do poema: A vogal "a", que inicia a palavra "acabei", some na declamação.)

Fernando Pessoa foi um dos mais geniais poetas de todos os tempos e mestre na construção de estrofes.

Outro elemento no qual a construção das estrofes é muito baseada é na distribuição dos Pés do poema. Pés são as células rítmicas de um poema, formados pelas sílabas tônicas e àtonas. Muitas vezes (principalmente em poemas modernistas ou pós-modernistas) os Pés ultrapassam a lógica dos versos, fazendo mais sentido se observados na estrofe como um todo.

Além disso, como a divisão das estrofes contempla uma pausa maior na leitura, ela é usada, também, para ritmar a leitura do poema.

Gostou? Acha que outro assunto deveria ser abordado? Deixe seu comentário!

Um abraço!

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